Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

Paleoartigos

Publicado em Ensaios de minha lavra, Livros (resenhas & comentários) por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

A seguir, os 2 artigos mais antigos de minha autoria que (ainda) estão publicados na web:

A verdadeira lei de Gérson“, escrito em 1999, fazia algumas considerações engraçadas sobre cooperação e trapaça (assuntos que eu me especializei alguns anos depois), e também era uma mini-resenha de “The millionaire next door”, um livro que considerava bom na época.

O dilema da negociação“, escrito em parceria com o meu grande amigo Antonio Maia, é na verdade uma resenha de um capítulo do (ótimo, inclusive hoje) livro do Eric Posner “Law and Social Norms”, especialmente indicado para profissionais de Recursos Humanos – tanto os advogados ou juízes trabalhistas quanto os gerentes/diretores de RH, desde que “profissionais estratégicos”.

Honestamente, se você não quiser ler meus livros ou comprar meu CD/MP3 que eu anuncio ao lado, leia pelo menos esse artigo sobre o “Dilema do Posner”, acima. Mesmo que você não seja da área jurídica/RH, mais  cedo ou mais tarde, você vai ter que contratar alguém ou ser contratado, o que significa que haverá uma situação de dilema do prisioneiro entre empregado e empregador. Às vezes, você é o empregado; noutras você é o patrão; não importa, o fato é que as relações de trabalho são, necessariamente, dilemas do prisioneiro.

O monge, o executivo, e o Groucho Marx

Publicado em Atualidades, Ensaios de minha lavra, Livros (resenhas & comentários) por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

He may look like an idiot and talk like an idiot, but don’t let that fool you. He really is an idiot.

Julius Henry “Groucho” Marx (2 de outubro de 1890 – 19 de agosto de 1977)

Às vezes eu me assusto com os bestsellers, especialmente os da área de negócios (não, não é verdade: eu me assusto com todos eles, inclusive na música, no cinema, na Economia, e em todos os outros ramos que têm bestsellers). Na verdade, foi o “Quem mexeu no meu queijo?“, mega-sucesso editorial do sub-ramo de auto-ajuda de negócios do início do século que me motivou a escrever meu primeiro livro (se alguém compra até aquilo lá, apostei que também comprariam um texto meu – e ganhei!).

Apesar disto, qual não foi a minha surpresa ao ver que “O monge e o executivo” ainda está nas listas dos 10 mais em 2008!? Bestsellers não são tão longevos assim, na média, o que faz de “O monge” um verdadeiro fenômeno editorial. Se o livro ainda faz sucesso, minha crítica a ele, escrita em 2005, também pode fazer. Como nenhuma editora aceitou publicá-la quando a escrevi, vai ser preciso baixá-la aqui, num arquivo PDF. (Creio que, mais uma vez, esse texto será um retumbante fracasso de público, mas de acordo com os objetivos deste blog, faz sentido publicá-lo).

O fato é que, um ano após escrever o texto acima, conheci o autor de “O monge” pessoalmente. Fui dar uma palestra em Belo Horizonte e, no jantar oferecido pelos patrocinadores, sentei em frente ao autor, Mr. James C. Hunter (também palestrante no mesmo evento), com quem conversei longamente. Lendo o livro, tive a impressão de que o autor era meio… (Como dizer sem ser ofensivo?) Limitado. Assistindo à sua palestra, achei-o meio primário (o que as pessoas com quem conversei no evento concordaram, mas disseram que a “simplicidade” era sua maior qualidade). Contudo, até conhecê-lo pessoalmente, ainda tinha esperanças que aquilo era um papel que ele estava representando, e que na verdade o sujeito era brilhante, inteligente e sagaz. Por coincidência, quando cheguei ao hotel, liguei a TV a cabo e estava passando um filme antigo dos irmãos Marx. Aí, finalmente, entendi o que estava acontecendo…

Teoria do búfalo

Publicado em Just for fun por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

Quando uma manada de búfalos é caçada, só os búfalos mais fracos e lentos, em geral doentes, que estão atrás do rebanho, são mortos primeiro. Essa seleção natural é boa para a manada como um todo, porque aumenta a velocidade média e a saúde de todo o rebanho pela matança regular dos seus membros mais fracos. De forma parecida opera o cérebro humano: beber álcool em excesso, como nós sabemos, mata neurônios, mas, naturalmente, ele ataca os neurônios mais fracos e lentos primeiro. Neste caso, o consumo regular de cerveja, cachaça, whisky, vinho, rum, vodka, elimina os neurônios mais lentos, tornando seu cérebro uma máquina mais rápida e eficiente. E mais: 23% dos acidentes de trânsito são provocados pelo consumo de álcool. Isto significa que os outros 77% dos acidentes são causados pelos filhos da put@ que bebem água, suco ou refrigerante ou outra merda qualquer!!!. Colabore!!Seja inteligente!

JÁ PRO BOTECO!

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Pérolas do Orkut

Publicado em Just for fun por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

Em 2004, abri uma comunidade no Orkut chamada Teorias Malditas, que usei para discutir alguns assuntos e testar uma idéias para o livro que estava escrevendo (que acabou publicado com o nome de “Prática na Teoria”, pela editora Saraiva, em julho de 2005). Foi uma experiência incrível, e um fator que ajudou muito a fazer do meu livro um sucesso (pelo menos, de acordo com minhas expectativas, que nunca foram a de publicar um bestseller).

De um tempo para cá, porém, o Orkut virou um pardieiro impossível de gerar discussões interessantes, como antigamente (até 2006). É uma pena, pois a idéia era muito boa – e uma prova disso é o número de sites “inspirados” no Orkut que apareceram. De qualquer maneira, o Orkut ainda é uma fonte inesgotável de pérolas. Abaixo, copio algumas das 26 que me foram enviadas por e-mail ontem (uma melhor que a outra):

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Informações assimétricas

Publicado em Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

Imprima e guarde para usar quando você for comprar um carro usado, contratar alguém, ou pedir crédito num banco:

Assimetria de informações

Imagine que você queira comprar um carro usado: um Gol ano 98, por exemplo. Você encontra este modelo em várias lojas da cidade, mas quando volta para casa, você vê o Gol 98 do seu vizinho com uma placa de “vende-se” na janela. Qual carro você irá preferir: o da loja ou do seu vizinho? Agora, coloque-se na pele de um gerente de produção que precisa contratar um engenheiro. Você tem inúmeros currículos na sua mesa, mas um deles é do filho do seu amigo, que você conhece desde pequeno. Qual seria sua escolha natural? Ambos os casos tratam da questão da Informação Assimétrica, uma das teorias mais importantes para entender o funcionamento dos desvios de eficiência no mercado de trabalho.

Depois do Nobel de Economia para a Teoria dos Jogos em 1994, a comunidade acadêmica tem se interessado cada vez mais pela Microeconomia, como foi o Nobel de 2001 para a Informação Assimétrica. Determinados mercados, como os de carros usados, seguros, crédito e serviços especializados têm a característica de uma das partes saber muito mais do que a outra sobre a real qualidade do que está sendo negociado. O vendedor do carro usado sabe muito mais sobre o estado do veículo que o comprador. Quem contrata um plano de seguro médico conhece melhor seu próprio estado de saúde que a empresa de seguro. E, no caso do mercado de trabalho, o empregado também sabe muito mais sobre si mesmo que o empregador.

A Informação Assimétrica, porém, tem uma conseqüência nefasta sobre os vendedores: a Seleção Adversa. Quando compradores e vendedores não têm como determinar a real qualidade do produto, fazendo com que produtos de qualidades distintas sejam vendidos pelo mesmo preço, a Seleção Adversa cria um desvio de eficiência no mercado. Este desvio se traduz em uma depreciação indiscriminada de preços. Para entender o efeito da Informação Assimétrica sobre o mercado de trabalho, o ganhador do prêmio Nobel George Akerlof estudou o mercado de carros usados nos Estados Unidos, lá conhecidos como “lemons”.

Akerlof concluiu que, como vendedores e compradores não tinham como saber a verdadeira qualidade dos veículos, o mercado tendia a ter seu ponto de equilíbrio baseado no preço dos carros de baixa qualidade. Na verdade, somente pelo fato do veículo estar à venda em uma loja de usados, seu preço já seria substancialmente depreciado. Em contrapartida, os consumidores estariam dispostos a pagar mais pelos “carros de vizinho”. Acontece que o carro do seu vizinho vale mais para você que o conhece. Este mesmo carro em uma loja de usados é um “lemon”. Ou seja, o que faz a diferença é a assimetria de informações.

De forma análoga, um profissional que já esteja empregado vai ter muito mais facilidade em conseguir um outro emprego que alguém que esteja desempregado. Apesar de um potencial empregador eventualmente nem conhecer a empresa onde determinada pessoa trabalhe, ele vai admitir por hipótese que se trata de uma pessoa mais qualificada simplesmente por não estar no mercado de “lemons”. Se os efeitos da Informação Assimétrica são tão devastadores para quem está desempregado, os economistas começaram então a entender o que poderia ser feito para diminuir a Seleção Adversa no mercado de trabalho.

Neste ponto, a Informação Assimétrica se encontra com a Teoria dos Jogos ao concluir que a reputação seria um dos principais fatores para diminuir a disparidade de informações. Uma outra forma de diminuir a assimetria de informações seria através da sinalização de mercado. Um MBA em Harvard é um forte sinalizador não só porque significa que o profissional tenha conhecimentos específicos sobre administração de empresas. Talvez mais importante que o conhecimento, ter um título destes sinaliza outras qualidades, como inteligência, disciplina e empenho. O mesmo acontece com profissionais que trabalham à noite e nos finais de semana. Muitas vezes, estes profissionais trabalham fora do horário normal simplesmente para sinalizar comprometimento e dedicação, mesmo em situações onde a demanda profissional não seja tão alta.

McDonald’s é uma empresa que tira proveito das Informações Assimétricas pela padronização. Você pode não jantar no McDonald’s de sua cidade, mas se você estiver viajando com sua família pelo interior, provavelmente vai preferir a segurança de um McDonald’s à incerteza de um restaurante de estrada. A mesma estratégia pode ser adotada por um profissional que possua certificações reconhecidas mundialmente: a padronização aumenta a segurança de quem o contrata.

Nada, porém, é mais eficiente para diminuir as informações assimétricas que o velho e bom networking. Dê uma olhada no seu currículo. Mesmo que você tenha seguido todas as orientações para construir um currículo perfeito, ele vai conter uma fração da informação sobre quem você realmente é. Seria comparável ao manual do proprietário de um carro usado, onde você vê os carimbos das revisões: o.k., o carro teve manutenção, mas como ele foi dirigido de fato? Seus amigos, parentes e colegas de trabalho, por outro lado, sabem o que você andou fazendo nos últimos anos. É comparável ao carro do vizinho que você vê todo dia – e, a propósito, não vai dar a mínima importância para o manual, caso se interesse em comprá-lo.

A assimetria de informações é um fenômeno relativamente recente na história do homem. Antes da evolução das tribos primitivas para as supertribos que originaram as cidades modernas, as pessoas se conheciam mutuamente e a assimetria de informações era praticamente nula. Hoje em dia, o homem vive no anonimato em decorrência da hiper-população: ninguém mais conhece ninguém e a assimetria de informações é enorme. O networking é, na verdade, uma estratégia para diminuir os efeitos das enormes aglomerações em que vivemos. Nós ficamos menos anônimos e, conseqüentemente, as informações sobre nós ficam mais simétricas.

Confiança com ou sem fiança?

Publicado em Atualidades, Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

A piada é velha, mas ainda hoje engraçada:

O turquinho tinha subido no telhado e não sabia descer. Aí o pai dele (o turcão) apareceu e, do chão, gritava “Bula vilhinha, bula que babai sigura!!!”. O garoto não se convencia “Mas babai, eu tem medo de cai nu chom, e se babai num sigura eu?”, mas o pai reforçava “Vilhinha, bode bula, gônvia babai, babai sigura!!!”. Muito a contragosto, o turquinho acabou pulando para os braços do pai, que na última hora tira o corpo fora e deixa o filho se estatelar no chão. Ainda chorando, com dentes quebrados e todo machucado, o garoto reclama “Mas púrque babai num sigura vilhinha!!! Púrque babai tira corpo fora e deixa vilhinha esborrachar nu chom???”, ao que o turcão explica a grande lição do dia “Izo é brá vilhinha abrendi num gônvia nem nu babai!!!”.

Bem… Parece que o tal do “mercado” está que nem o turquinho da piada, que agora “num gônvia nínguem”… Talvez seja o caso de colocar oxitocina na água de Nova York. Leia o artigo abaixo, publicado originalmente na revista Você S/A em 2002:

A história da confiança (e da crise de confiança)

Se observarmos o homem em comparação com qualquer outro animal, fica evidente que somos uma das espécies menos dotadas de mecanismos de sobrevivência na natureza. Praticamente todos os animais têm alguma vantagem competitiva na luta pela vida: dentes afiados, garras poderosas, velocidade na terra, no ar ou na água, sistemas inoculadores de veneno ou capacidade de gerar descargas elétricas são alguns dos exemplos. Nós, ao contrário, temos pele sensível, não enxergamos à noite, precisamos dormir um terço do dia e somos totalmente indefesos nos primeiros anos de nossas vidas. Mesmo assim, o homem é um dos animais que teve o maior sucesso evolutivo na história do planeta.

Apesar de sermos uma espécie com enormes habilidades físicas e intelectuais para fabricar ferramentas e adotar estratégias elaboradas de caça, o homem deve seu desenvolvimento à sua capacidade de organização social. Um homem sozinho, por mais hábil e inteligente que seja, teria suas chances de sobrevivência bastante restritas na natureza. Enquanto isto, um grupo bem coordenado de seres humanos é praticamente imbatível. Mas nós não somos os únicos animais sociais do planeta. Muitas outras espécies também se organizam socialmente, e uma delas obteve êxito comparável ao nosso: as formigas.

Existe, porém, uma diferença básica entre a organização social das formigas e a nossa: formigas são cooperadoras incondicionais e nós não. As formigas são totalmente desprovidas de sentimento individual. Elas existem para o bem-estar do formigueiro e não delas próprias. Nós, ao contrário, vivemos o conflito de interesses constante de agir em proveito próprio ou da comunidade. O homem convive com a perspectiva da deserção da outra parte constantemente e, justamente por isto, nós damos tanta importância à reputação cooperativa do outro. Nossa estrutura social é baseada em confiança, a certeza que o outro vai se manter cooperativo em uma situação de conflito de interesses mesmo se houver vantagem em não cooperar.

Os primeiros seres humanos formaram grupos de caçadores-coletores que dividiam o trabalho de coleta de vegetais e formavam grupos de caça baseados em confiança. Estes caçadores-coletores primitivos evoluíram e aprenderam a cultivar seus alimentos e a trocar seus excedentes com membros de outras aldeias. Com o aparecimento da agricultura e do comércio, os mesmos mecanismos de confiança dos caçadores-coletores continuaram existindo e sua importância só aumentou. O homem atravessou eras, desenvolveu tecnologias, inventou o dinheiro e, em decorrência dele, o crédito.

Com o aparecimento do crédito, as relações humanas se tornaram ainda mais baseadas na cooperação mútua. E este mecanismo de confiança proporcionou o desenvolvimento da civilização em uma velocidade nunca antes vista, pois a riqueza de um financiava o desenvolvimento do outro e o comércio adquiriu uma importância impensável para um caçador-coletor primitivo. Mas tanto o homem primitivo quanto o financista de Wall Street do século XXI têm o mesmo equipamento biológico, o mesmo cérebro. E é este cérebro que criou mecanismos de cooperação nas atividades caçadoras de dezenas de milhares de anos atrás que toma decisões financeiras hoje em dia.

O mecanismo de funcionamento do cérebro humano ainda é pouco conhecido, mas já se identificou um hormônio, a oxitocina, que parece estar relacionado com a disposição em confiar do ser humano. Disto, podemos concluir que quando se diz que o mercado precisa tomar calmante para voltar à normalidade, talvez seja mais correto dizer que o mercado precise tomar oxitocina, já que o problema real é a falta de confiança, o nervosismo é somente um efeito colateral.

De qualquer forma, com ou sem oxitocina, o homem desenvolveu uma mecânica de pensamento para avaliar se pode ou não confiar no outro com base na reputação. E reputação é decorrente do histórico de um indivíduo em situações de conflito de interesses entre o benefício individual ou comunitário como a situação do Dilema do Prisioneiro, onde cada um dos participantes deve decidir se coopera ou não baseado no que ele pensa que o outro pensa sobre ele mesmo. O problema é que destas conjecturas acerca da deserção ou cooperação do outro podem surgir crises de confiança devastadoras com graves conseqüências econômicas: são as crises de confiança do mercado financeiro.

Os atores da crise estão em equilíbrio cooperativo antes dela acontecer: o credor mantém o crédito aberto ao devedor que retribui pagando seus compromissos regularmente. Subitamente, uma das partes pode concluir que a outra parte irá desertar e, para antecipar a deserção do outro, decide desertar primeiro. O interessante é que o outro não precisa tomar nenhuma medida efetiva para que a crise aconteça, basta dar algum indício de mudança de comportamento para acender o pavio do conflito.

Como o homem é o mesmo em termos biológicos há dezenas de milhares de anos, nosso cérebro interpreta uma crise de confiança em um mercado financeiro sofisticado como o nosso da mesma forma que interpretaria uma deserção em uma patrulha de caçadores primitivos há cinqüenta mil anos. Um caçador que não fosse digno de confiança seria excluído da aldeia. De maneira análoga, uma pessoa, uma empresa ou um país que for visto como não confiável financeiramente será excluído deste mercado: é o mecanismo do ostracismo. Foi este comportamento que fez do homem um sucesso evolutivo.

Cooperação: manual do proprietário

Publicado em Ensaios de minha lavra por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

Este é o 5o. artigo publicado na Você S/A, que explica diferentes maneiras de organização social cooperativa:

Lições do formigueiro

Tanto entre os animais (não-humanos) quanto entre os homens, a cooperação parece ser o fator-chave do sucesso. Golfinhos formam grupos para encurralar cardumes de peixes com resultados muito melhores que a caça individual. Chimpanzés formam bandos de mais de cem indivíduos que os protege contra predadores e bandos rivais. E a humanidade forma grupos de trabalho há muitos milhares de anos. Henry Ford revolucionou a indústria com o conceito de linha de montagem, que nada mais é do que uma nova forma de organizar a cooperação humana. Mas como convencer cada indivíduo a atuar cooperativamente como parte de um grupo? Por mais que o desempenho cooperativo de um grupo seja a opção mais interessante para a coletividade, os mecanismos do individualismo, da deserção e da trapaça tendem a trazer benefícios ainda maiores para cada indivíduo em particular.

Imagine que você faça parte de um grupo de caçadores aborígines. Vocês estão à caça de um animal de grande porte que irá matar a fome de toda a aldeia – um gnu, por exemplo. Para isto, é necessário que haja uma coordenação da equipe para cercar o bicho e possibilitar o seu abate. Entretanto, num dado momento você vê um coelho passando. Você sabe que um coelho é suficiente para matar a fome da sua família. Por outro lado, se você for atrás do coelho, toda a operação de caça pode naufragar se o gnu tentar escapar justamente pelo seu lado. Você também sabe que, mesmo com a cooperação de todo o grupo, as chances de pegar o gnu são muito menores que a sua possibilidade de sucesso individual com o coelho. Existe ainda a possibilidade de você cooperar com o grupo e esquecer o coelho – mas se algum outro componente do grupo for atrás do seu coelho, você vai ficar sem nada. O que fazer, então?

Segundo o conceito original da Teoria dos Jogos, a deserção seria a alternativa racional. Em um jogo de rodada única, o caçador que for atrás do seu coelho estaria exercendo a melhor opção. Mas na vida real, o que acontece com maior freqüência são situações de repetição do jogo, onde a cooperação mútua tende a trazer os melhores resultados tanto individual quanto coletivamente. Nos grupos humanos em geral – e no exemplo dos aborígines em particular – é essencial que se possa acreditar que cada membro irá se comportar cooperativamente. É a base de um conceito que costumamos chamar de confiança. Se todos tiverem a certeza que todos cooperam, será muito melhor o desempenho do grupo como um todo. O grande problema é convencer cada um dos componentes do grupo a cooperar mesmo em situações em que a deserção traz o melhor resultado individual imediato.

Em termos de cooperação, entretanto, nada se compara ao que acontece com as formigas. Estes insetos têm uma organização sem hierarquia formal definida, sem mecanismos coercitivos, sem punições ou recompensas e sem estruturas de comando que funciona maravilhosamente bem. Todas as formigas cooperam e colocam a sobrevivência do formigueiro acima de sua própria sobrevivência. Não existe deserção individual entre as elas. Formigas jogam segundo a estratégia do “coopere sempre” há milhões de anos com excelentes resultados. Mas não é isto que acontece entre os humanos, que sempre estão à mercê de uma traição de outra parte. Os seres humanos precisaram desenvolver mecanismos para estimular a cooperação mútua baseado na punição.

Para que a sociedade humana funcione, foi necessário criar o mecanismo do ostracismo, em que o indivíduo não-cooperativo é excluído do grupo. Para que se saiba quem é que não coopera – e, portanto, quem é que deve ser mantido fora do grupo – criou-se um outro mecanismo denominado estigmatização. O estigma é uma marca que o indivíduo condenado ao ostracismo carrega para ser facilmente identificado. No Oriente Médio, a amputação das mãos é um mecanismo usado até hoje para estigmatizar um ladrão. Uma pessoa maneta é facilmente reconhecida como uma ladra e, com isto, toda a sociedade sabe que ela não é digna de confiança. Ao contrário das formigas, nós só conseguimos obter a cooperação recíproca na marra. Se nós cooperássemos sempre espontaneamente, não haveria a necessidade de tantos mecanismos punitivos, como leis e contratos.

O maior problema do mecanismo do estigma e do ostracismo é que o indivíduo é impedido de permanecer no grupo por um comportamento passado, mas nada garante que isto se repetiria no futuro. Um caçador pode eventualmente desertar do grupo para caçar o coelho porque sua mulher acabou de parir um bebê e ele não podia prescindir de alimento naquele momento específico. Mas, no futuro, aquele caçador poderia voltar a se comportar cooperativamente e fazer a diferença para a sobrevivência do grupo, coisa que não vai ser possível se ele for estigmatizado e condenado ao ostracismo. O processo de estigmatização faz com que a sociedade dirija somente olhando no retrovisor e não para frente. Parece que temos muito a aprender ainda com as formigas.

O bode no NatGeo e no Estadão

Publicado em Uncategorized por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

Este final de semana estreou um documentário excelente sobre a maçonaria no National Geographic Channel que vale a pena ser visto (abaixo, o vídeo da parte I no Youtube). No total, são 10 episódios, os 9 primeiros com cerca de 10 minutos, e o último com 5, que você pode acessar aqui. Por coincidência, o Estadão também enfocou a maçonaria neste domingo, com um bom artigo aqui e outro péssimo, aqui.

“”"Ciências”"” Econômicas

Publicado em Ensaios de minha lavra por Raul Marinho em 14 Outubro, 2008

Depois dessa crise, espero que, de uma vez por todas, entenda-se que Economia NÃO é ciência. Interpretei o Nobel de Economia deste ano como um sinal da Academia neste sentido,  já que o Paul Krugman é um anti-economista.

Na verdade, nenhuma “”"ciência”"” social pode ser considerada ciência no sentido popperiano (o único que faz sentido). “”"Ciência”"” jurídica ou hermenêutica, então, nem pensar (isso é a quintessência das contradições). Ciência de verdade é Física, Química, Biologia, onde se pode fazer predições, testes, falsear e replicar os experimentos, o resto é técnica (ex. Engenharia e Administração) e/ou coleção de selos (ex. Sociologia e Economia).